Uma comparação entre as filosofias da ciência de Bachelard e Popper

O filósofo Hilton Japiassu alude à possibilidade de estudar comparativamente o pensamento dos teóricos Gaston Bachelard e Karl Popper a respeito do funcionamento das ciências. Em Introdução ao Pensamento Epistemológico, p. 107-109, lemos:

Talvez fosse bastante interessante tentarmos fazer uma aproximação comparativa de certas posições de Popper, em matéria de epistemologia, com certas posições semelhantes de G. Bachelard. Que eu saiba, um estudo comparativo ainda está por ser feito. Não pretendo aqui levá-lo a efeito. Gostaria apenas de sugerir alguns pontos de concordância:

a) Tanto a filosofia das ciências de Popper quanto a de Bachelard caracterizam-se por serem epistemologias críticas e polêmicas, tentando “reformular” os conceitos científicos existentes e “reformar” os conceitos filosóficos a respeito da ciência. Ambas as filosofias são “antiempiristas” e racionalistas e defendem a “tese” segundo a qual as ciências devem produzir, a cada momento de sua história, suas próprias normas de verdade;

b) Ambas as “filosofias das ciências” estão fundadas no princípio epistemológico de base, segundo o qual o conhecimento científico jamais atinge uma verdade objetiva, absoluta. A ciência só nos fornece um conhecimento provisório (Popper) e aproximado (Bachelard). Ela jamais engloba fatos estabelecidos. Nada há, nela, de inalterável. A ciência está em constante modificação (Popper) ou em permanente retificação (Bachelard). Não podemos identificar “ciência” e “verdade”. Nenhuma teoria científica pode ser encarada como verdade final (Popper) ou como saber definitivo (Bachelard). A objetividade científica reside única e exclusivamente no trabalho de crítica recíproca dos pesquisadores (Popper) ou é o resultado de uma construção, de uma conquista e de uma retificação dos fatos da experiência pela Razão (Bachelard). Uma teoria científica se coloca permanentemente em estado de risco (Popper), ou, no dizer de Bachelard, “no reino do pensamento, a imprudência é um método”;

c) Segundo Popper, “a crença segundo a qual é possível principiar com observações puras, sem que elas se façam acompanhar por algo que tenha a natureza de uma teoria, é uma crença absurda”. Em outras palavras, todas as observações já são interpretações de fatos observados à luz de uma teoria. Segunda Bachelard, toda constatação supõe a construção; toda prática científica engaja pressupostos teóricos; a teoria científica progride por retificações, isto é, pela integração das críticas destruindo a imagem das primeiras observações: “O vetor epistemológico vai da Razão à experiência, e não da experiência ‘a Razão”;

d) Popper admite que, quanto mais específicos forem os enunciados empíricos, mais probabilidades eles terão de se revelarem errôneos, mas também, maiores chances de fornecerem melhores e mais úteis conteúdos informativos. Por sua vez, a epistemologia de Bachelard se caracteriza pelo esforço de apreender a lógica do erro para reconstruir uma lógica da descoberta da verdade como polêmica contra o erro, como “refutação” dos erros, mas também como uma tentativa de submeter as verdades aproximadas (jamais inteiramente objetivas) da ciência e os métodos que ela utiliza a uma retificação metódica e permanente. Neste particular, Popper não se interessa pela lógica da invenção ou da criação. Talvez Bachelard venha completar Popper, ao postular a descoberta metódica, na ciência, de uma ars inveniendi, em oposição à ars probandi do empirismo epistemológico, e levando a um maior aprofundamento a ars refutandi de Popper. Com efeito, a epistemologia de Bachelard se define por ser uma reflexão crítica sobre a ciência, não enquanto “estado”, mas enquanto “processo”, em seu vir-a-ser. E ao colocar-se no centro epistemológico das oscilações do pensamento científico, quer dizer, entre o poder de retificação das teorias (que é o da experiência) e o poder da ruptura e da criação (ruptura com as antigas teorias e criação de novas), que pertence ao domínio da Razão, Bachelard também postula, como Popper, um racionalismo. Seu racionalismo, porém, chama-se aplicado, pois trata-se de uma filosofia que se atualiza na “ação polêmica incessante da Razão”. Trata-se, ainda, de uma filosofia que se recusa ao formalismo e ao fixismo de uma Razão una e indivisível. Ao aceitar como postulado primeiro “o primado teórico do erro”, a epistemologia de Bachelard define o progresso do conhecimento como retificação incessante. Por sua vez, Popper afirma que o conhecimento progride quanto é retificado pelas críticas a ele dirigidas. Um conhecimento que se furta à crítica, consequentemente, à refutação e à retificação, está fadado à estagnação. Tanto Bachelard quanto Popper contestam a epistemologia positivista segundo a qual podemos separar a comprovação dos fatos da elaboração teórica de que os fatos científicos extraem seu sentido. Segundo eles, se todo sistema de enunciados empíricos com pretensões a uma validade científica precisa passar por uma comprovação da realidade (Bachelard) ou ser testado por ela (Popper), nem por isto este imperativo epistemológico deve ser pura e simplesmente identificado com o imperativo tecnológico pretendendo subordinar toda formulação teórica à existência atual de técnicas tornando possível verificá-la no momento mesmo em que ela se expressa. Nenhum enunciado teórico, em contrapartida, pode ser tido como definitivamente estabelecido: permanece a possibilidade teórica de se descobrir novos meios capazes de questionar as observações atuais e de rejeitar a teoria que elas validam.

Destacamos nesse trecho esta proposição: “Talvez Bachelard venha completar Popper, ao postular a descoberta metódica, na ciência, de uma ars inveniendi, em oposição à ars probandi do empirismo epistemológico, e levando a um maior aprofundamento a ars refutandi de Popper”. Eis uma ideia que pode ser fundamentada de fato por um estudo conforme o proposto.

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